terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SOBRE COMEÇOS


Andei comprando e lendo alguns livros sobre “ensinando principiantes estúpidos a escrever”, “como escrever para garantir um milhão de leitores”, “segredos dos bons escritores para escrever bem” e semelhantes, todos em inglês.

Em português não sei de nada do gênero – parece que por aqui ninguém é principiante, ninguém é estúpido, ninguém quer um milhão de leitores e ninguém pretende conhecer a prática de bons escritores, ainda que planeje ser um.

A título de explicação: sou velha, mas sou principiante; não nego nem ignoro minha dose de estupidez; adoraria ter um milhão de leitores; e, não desprezo a experiência de ninguém, sobretudo nas áreas da vida em que, ou tenho vivências obrigatórias, ou me arrisco ao prazer de provocar ensaios.

Pois nesses livros, escritos por agentes literários, editores e escritores, encontro sempre uma mesma observação sobre inícios: eles devem ser suficientemente intrigantes para segurar o interesse e a atenção do leitor.

Há técnicas para isso, converso sobre o assunto outro dia. Hoje quero propor um exercício. Sugiro que você pegue dois ou três livros que ame de montão e leia até o ponto em que eles “fisgaram” sua atenção. Você sabe dizer por quê?

Fiz isso com vários livros que adoro, vou citar dois.

O primeiro foi “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.  

“– Nonada.” Pronto. Já estou. “Grande Sertão” me prende desde a primeira palavra. "Nonada?" Dá um estranhamento. Continuo lendo, e há muitos, muitos momentos que me pegam pelo inusitado uso da linguagem. Funciona comigo, que adoro construções que desviam modos de pensar usuais. 

O segundo livro que escolhi foi “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro da série, da qual sou fã ardorosa.

O título do primeiro capítulo já me deixou intrigada: “O menino que sobreviveu”. Leio em seguida o primeiro parágrafo: “O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, no4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado”.

Perfeitamente normais? Então fico sabendo que “Os Dursley tinham tudo que queriam, mas tinham também um segredo, e seu maior receio era que alguém o descobrisse. Achavam que não iriam aguentar se alguém descobrisse a existência dos Potter”.

Uhm. Segredo? Os Potter? “Quando o Sr. e a Sra. Dursley acordaram na terça-feira monótona e cinzenta em que a nossa história começa, não havia nada no céu nublado lá fora sugerindo as coisas estranhas e misteriosas que não tardariam a acontecer por todo o país.”

Estranhas e misteriosas? Por todo o país? Quero continuar a lerMas desta vez não é o uso da linguagem, não são modos de idear não usuais (nem mesmo em inglês – o livro é muito bem escrito, mas não é essa sua pretensão). Desta vez é a promessa de trama – o que vai acontecer? É a curiosidade em relação aos personagens – quem são esses Potter? O que têm eles a ver com as coisas estranhas e misteriosas?

Portanto, ainda que para uma única leitora, há modos e modos de prender a atenção e fisgar o interesse. Não há receitas prontas, contudo há modos de dialogar com essa diversidade de leitores, e de leituras por um mesmo leitor. Tais modos podem ser estudados, ensinados, aperfeiçoados, dominados. Ou não?

Voltarei ao assunto. Por enquanto, volte aos livros que ama. O que o intriga e mantém o seu interesse na leitura de cada um deles?  

4 comentários:

  1. Eu sou uma principiante estúpida querendo aprender a escrever!

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  2. Saudade do tempo em que eu lia Harry Potter antes de dormir. Que delícia era descobrir aquele mundo maravilhoso e cheio de aventuras.

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    1. Delícia mesmo, Janine. Como dizia o meu neto Caio (na época em que era criança e eu lia para ele): "Eu fico dentro da história, vó".

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