Andei comprando e lendo alguns livros sobre “ensinando
principiantes estúpidos a escrever”, “como escrever para garantir um milhão de
leitores”, “segredos dos bons escritores para escrever bem” e semelhantes,
todos em inglês.
Em português não sei de nada do gênero – parece que
por aqui ninguém é principiante, ninguém é estúpido, ninguém quer um milhão de
leitores e ninguém pretende conhecer a prática de bons escritores, ainda que planeje
ser um.
A título de explicação: sou velha, mas sou
principiante; não nego nem ignoro minha dose de estupidez; adoraria ter um
milhão de leitores; e, não desprezo a experiência de ninguém, sobretudo nas
áreas da vida em que, ou tenho vivências obrigatórias, ou me arrisco ao prazer
de provocar ensaios.
Pois nesses livros, escritos por agentes literários,
editores e escritores, encontro sempre uma mesma observação sobre inícios: eles
devem ser suficientemente intrigantes para segurar o interesse e a atenção do
leitor.
Há técnicas para isso, converso sobre o assunto outro dia. Hoje quero propor um
exercício. Sugiro que você pegue dois ou três livros que ame de montão e leia
até o ponto em que eles “fisgaram” sua atenção. Você sabe dizer por quê?
Fiz isso com vários livros que adoro, vou citar dois.
O primeiro foi “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães
Rosa.
“– Nonada.” Pronto. Já estou. “Grande Sertão” me prende desde a primeira palavra. "Nonada?" Dá um estranhamento. Continuo lendo, e há muitos, muitos momentos que me pegam pelo inusitado uso da linguagem. Funciona comigo, que adoro construções que desviam modos de pensar usuais.
“– Nonada.” Pronto. Já estou. “Grande Sertão” me prende desde a primeira palavra. "Nonada?" Dá um estranhamento. Continuo lendo, e há muitos, muitos momentos que me pegam pelo inusitado uso da linguagem. Funciona comigo, que adoro construções que desviam modos de pensar usuais.
O segundo livro que escolhi foi “Harry Potter e a
Pedra Filosofal”, o primeiro da série, da qual sou fã ardorosa.
O título do primeiro capítulo já me deixou intrigada: “O menino que sobreviveu”. Leio em
seguida o primeiro parágrafo: “O Sr. e a
Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, no4, se orgulhavam de dizer que
eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado”.
Perfeitamente normais? Então fico sabendo que “Os Dursley tinham tudo que queriam, mas
tinham também um segredo, e seu maior receio era que alguém o descobrisse.
Achavam que não iriam aguentar se alguém descobrisse a existência dos Potter”.
Uhm. Segredo? Os Potter? “Quando
o Sr. e a Sra. Dursley acordaram na terça-feira monótona e cinzenta em que a
nossa história começa, não havia nada no céu nublado lá fora sugerindo as
coisas estranhas e misteriosas que não tardariam a acontecer por todo o país.”
Estranhas e misteriosas? Por todo o país? Quero
continuar a ler. Mas desta vez não é o uso da linguagem, não são modos
de idear não usuais (nem mesmo em inglês – o livro é muito bem escrito, mas não
é essa sua pretensão). Desta vez é a promessa de trama – o que vai acontecer? É
a curiosidade em relação aos personagens – quem são esses Potter? O que têm
eles a ver com as coisas estranhas e misteriosas?
Portanto, ainda que para uma única leitora, há modos e
modos de prender a atenção e fisgar o interesse. Não há receitas prontas,
contudo há modos de dialogar com essa diversidade de leitores, e de leituras por
um mesmo leitor. Tais modos podem ser estudados, ensinados, aperfeiçoados,
dominados. Ou não?
Voltarei ao assunto. Por enquanto, volte aos livros
que ama. O que o intriga e mantém o seu interesse na leitura de cada um deles?
Eu sou uma principiante estúpida querendo aprender a escrever!
ResponderExcluirSomos duas, então... Vivendo, escrevendo e aprendendo.
ExcluirSaudade do tempo em que eu lia Harry Potter antes de dormir. Que delícia era descobrir aquele mundo maravilhoso e cheio de aventuras.
ResponderExcluirDelícia mesmo, Janine. Como dizia o meu neto Caio (na época em que era criança e eu lia para ele): "Eu fico dentro da história, vó".
Excluir