quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

VOLTANDO AOS COMEÇOS


Adoro passear em livrarias, procurando o que comprar. Não só eu. Nunca entrei em uma livraria às moscas, sem um freguês sequer passeando entre os livros, folheando-os, lendo as orelhas, o sumário, as primeiras páginas.
 
As primeiras páginas, os inícios... Sabe aquele livro de um gênero que apreciamos, com um título atraente, porém de um autor que desconhecemos? Vamos a ele pelo sumário e pelos primeiros parágrafos, ali mesmo na livraria. Nessas situações, é quase sempre o começo o que nos fisga a resolução de comprar, ou de abandonar o livro. 

Saber como começar, portanto, é um trunfo, principalmente para autores iniciantes. Não apenas porque queremos leitores, mas porque também queremos a atenção de gente que lê por profissão, nas agências literárias e editoras, e cujo interesse é disputado diariamente por inúmeros manuscritos. 

Na postagem anterior – Sobre Começos – disse que voltaria ao assunto. Aqui vão, então, alguns novos exemplos do que considero bons inícios. 

O sujeito sentado agora a seu lado no metrô cheirou para acordar hoje de manhã; ou o motorista do ônibus que te leva para casa porque quer fazer hora extra sem sentir dor na cervical. As pessoas mais próximas de você cheiram.
[Saviano, Roberto. Zero Zero Zero. Edição Eletrônica. Rio de Janeiro: Cia. das Letras.]
Qualidade: direto; cria desde logo a moldura onde se encaixa o tema – no caso, a cocaína e as máfias do tráfico de drogas (livro de não-ficção).

“Conte-me uma história”, ordena o homem barbudo sentado no sofá em minha sala. A situação, devo admitir, não me é nada agradável. Sou alguém que escreve histórias, não alguém que as conta. E mesmo isso não é algo que eu faça por encomenda. A última pessoa que me pediu para contar uma história foi meu filho. Isso foi há um ano. Eu lhe contei algo sobre uma fada e um furão, nem me lembro o quê, exatamente, e em dois minutos ele estava dormindo. Mas aqui a situação é fundamentalmente diferente. Porque meu filho não tem barba ou revólver. Porque meu filho pediu a história com bons modos, e este homem está simplesmente tentando roubá-la de mim.”
[Keret, Etgar. De repente, uma batida na porta. Tradução Nancy Rozenchan. Ed. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2014.]
Qualidade: é intrigante, desperta a curiosidade através dos personagens, sobre os quais ficamos desejando saber mais.

- Acabei de enterrar uma estrela!
Foi assim que o pastor Zero Madzero se anunciou junto à cama de sua esposa, Mwadia Malunga. Lá fora, espreitavam os primeiros sinais de luz. A mulher, ainda emergindo do sono, sorriu e disse:
- Venha, marido, venha que lhe apronto um bom banho.”
[Couto, Mia. O Outro Pé da Sereia. São Paulo: Cia das Letras, 2006.]
Qualidade: uma situação estranha, não usual: o que realmente terá acontecido?

“Era um mês de outubro em São Paulo, tempo de flores e dias nem muito quentes nem muito frios, e a criançada só falava no concurso das figurinhas de futebol.
Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixa pensar em mais em nada. Quem enchia o álbum ganhava prêmios bons e jogava-se abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras batendo e virando.”
[Marinho Silva, J.C. O Gênio do Crime”. São Paulo: Editora Obelisco, 1979.]
Qualidade: a familiaridade da situação, que é muito comum e excitante no universo infantil – o livro é para crianças; além disso, é fácil de se criar, imediatamente, uma imagem da situação.

“Miguel tinha oito anos, dois pais, e uns cinco países pelo menos. Às vezes ele não conseguia muito bem arrumar todos esses números dentro da cabeça. Ou somar, diminuir, multiplicar e dividir tudo isso dentro do coração. E volta e meia pensava no que podia fazer para botar todas essas coisas no lugar. Como não descobria, continuava tocando a vida para a frente – e também para cima e para os lados, que nem bola quando a gente faz embaixada.”
[Machado, Ana Maria. De Olho nas Penas. Rio de Janeiro: Salamandra, 1981.]
Qualidade: Sintetiza desde logo um personagem e uma situação intrigantes.

“Aos 91 anos minha avó Samara tentou usar aparelhos auditivos. O par de geringonças lhe cobria as orelhas e dava-lhe ao rosto uma expressão de telegrafista assustada com uma péssima notícia.
Por vaidade, deixou o cabelo grisalho crescer para esconder os aparelhos. E o mais incrível é que passou a ouvir menos de que antes e a ouvir coisas que ninguém dizia.”
[Hatoum, Milton. Conversa Com a Matriarca. In: Um Solitário à Espreita. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.]
Qualidade: Introduz um personagem curioso e cria uma estranheza – “ouvir coisas que ninguém dizia”?

Quando for fazer a revisão de seus próprios textos, analise bem como começou a contar sua história. Para ajudar, selecionei algumas perguntas que você pode se fazer, tiradas de livros sobre técnicas de escrita. Seu início não precisa apresentar todas as características, mas seria bom se pelo menos uma delas estivesse presente.

Seu início desperta a curiosidade e instiga a continuação da leitura?
É possível “ver” o que está sendo narrado? (Note que esta qualidade está presente em quase todos os meus exemplos, ainda que eu só a tenha destacado em um deles.)
O início apresenta um personagem ou uma ação (ou ambos) interessante, não usual?
É possível ao leitor enquadrar desde logo o tipo de narrativa e enfoque que caracteriza sua história?
O uso da linguagem provoca estranhamento, rompendo com modos comuns de expressar uma ideia? Ou rompendo com ideias convencionais?

Não sei se vocês concordam com as minhas escolhas, mas se observaram suas leituras favoritas terão colhido suas próprias impressões e lista de qualidades. Que tal compartilhar suas ideias? Façam seus comentários.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SOBRE COMEÇOS


Andei comprando e lendo alguns livros sobre “ensinando principiantes estúpidos a escrever”, “como escrever para garantir um milhão de leitores”, “segredos dos bons escritores para escrever bem” e semelhantes, todos em inglês.

Em português não sei de nada do gênero – parece que por aqui ninguém é principiante, ninguém é estúpido, ninguém quer um milhão de leitores e ninguém pretende conhecer a prática de bons escritores, ainda que planeje ser um.

A título de explicação: sou velha, mas sou principiante; não nego nem ignoro minha dose de estupidez; adoraria ter um milhão de leitores; e, não desprezo a experiência de ninguém, sobretudo nas áreas da vida em que, ou tenho vivências obrigatórias, ou me arrisco ao prazer de provocar ensaios.

Pois nesses livros, escritos por agentes literários, editores e escritores, encontro sempre uma mesma observação sobre inícios: eles devem ser suficientemente intrigantes para segurar o interesse e a atenção do leitor.

Há técnicas para isso, converso sobre o assunto outro dia. Hoje quero propor um exercício. Sugiro que você pegue dois ou três livros que ame de montão e leia até o ponto em que eles “fisgaram” sua atenção. Você sabe dizer por quê?

Fiz isso com vários livros que adoro, vou citar dois.

O primeiro foi “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.  

“– Nonada.” Pronto. Já estou. “Grande Sertão” me prende desde a primeira palavra. "Nonada?" Dá um estranhamento. Continuo lendo, e há muitos, muitos momentos que me pegam pelo inusitado uso da linguagem. Funciona comigo, que adoro construções que desviam modos de pensar usuais. 

O segundo livro que escolhi foi “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro da série, da qual sou fã ardorosa.

O título do primeiro capítulo já me deixou intrigada: “O menino que sobreviveu”. Leio em seguida o primeiro parágrafo: “O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, no4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado”.

Perfeitamente normais? Então fico sabendo que “Os Dursley tinham tudo que queriam, mas tinham também um segredo, e seu maior receio era que alguém o descobrisse. Achavam que não iriam aguentar se alguém descobrisse a existência dos Potter”.

Uhm. Segredo? Os Potter? “Quando o Sr. e a Sra. Dursley acordaram na terça-feira monótona e cinzenta em que a nossa história começa, não havia nada no céu nublado lá fora sugerindo as coisas estranhas e misteriosas que não tardariam a acontecer por todo o país.”

Estranhas e misteriosas? Por todo o país? Quero continuar a lerMas desta vez não é o uso da linguagem, não são modos de idear não usuais (nem mesmo em inglês – o livro é muito bem escrito, mas não é essa sua pretensão). Desta vez é a promessa de trama – o que vai acontecer? É a curiosidade em relação aos personagens – quem são esses Potter? O que têm eles a ver com as coisas estranhas e misteriosas?

Portanto, ainda que para uma única leitora, há modos e modos de prender a atenção e fisgar o interesse. Não há receitas prontas, contudo há modos de dialogar com essa diversidade de leitores, e de leituras por um mesmo leitor. Tais modos podem ser estudados, ensinados, aperfeiçoados, dominados. Ou não?

Voltarei ao assunto. Por enquanto, volte aos livros que ama. O que o intriga e mantém o seu interesse na leitura de cada um deles?  

sábado, 20 de dezembro de 2014

CULT

Você conhece a Revista Cult?

Se ainda não, experimente. Sugiro que você dê um passeio no site - www.revistacult.uol.com.br - e faça um reconhecimento.

Pessoalmente, sempre encontro matérias do meu interesse - teatro e literatura por primeiro -, e, em geral, também leio o blog da Márcia Tiburi. Procure entre os colunistas - http://revistacult.uol.com.br/home/category/colunistas/ - os assuntos que o/a atraem. 

Uma das páginas - Oficina Literária - http://revistacult.uol.com.br/home/category/oficina-literaria/ - é um espaço para a divulgação de novos talentos. Lá você encontra as instruções para envio de trabalhos, caso queira ver um conto seu, ou uma poesia, publicado no site.

Clique no Espaço Cult - http://www.espacorevistacult.com.br/ - para obter informações sobre cursos, de literatura, inclusive. Só que o Espaço fica em São Paulo.

A Revista Cult também é publicada em papel, e vendida nas bancas de jornal.

Indo até o site, volte aqui e me diga o que achou.